"Sobre Nós
Eles mudaram o mundo. Nenhuma dúvida quanto a isso. Não falo só sobre música, indústria e arte. A trajetória deles transformou gerações e contribuiu para a popularização de uma busca transcendental entre jovens de diferentes décadas. No entanto, a barreira da língua foi cabal para que algumas pessoas não entendessem o valor e a potência dos seus discos. A palavra mais cantada por suas bocas: amor.
Quem não os conhece bem se equivoca ao pensar que sua maior herança ao mundo pop foram os imortais refrãos ou seus cabelos longos e roupas exuberantes. Desde cedo reparei que vários artistas da MPB que minha família escutava citavam os caras em suas músicas ou entrevistas. Raul Seixas, Gil, Caetano, Mutantes, Novos Baianos, Roberto e Erasmo, Milton Nascimento, Belchior e a lista não tem fim. Aos oito anos ganhei do meu pai aquela coletânea vermelha e azul. Ele falou que ali tinha música boa e que não envelhecia. Bingo! Aos nove comecei a estudar violão para aprender as canções deles e sei que ali foi plantada a semente do que se tornaria meu ofício. Montei banda cover aos onze anos e aos treze entendi que eles seriam sempre uma inspiração, mas eu queria mesmo era cantar e compor as minhas coisas.
John me fez perceber o poder das mensagens nas canções e motivou a virar também um mensageiro musical. Quanto mais eu aprendia inglês, mais admirava a escolha das palavras naquelas letras. O ritmo das frases e as rimas se sustentavam sonoramente mesmo sem acordes e notas musicais. Canções como “Come Together”, “I Am The Walrus”, “Happiness Is A Warm Gun”, “Across The Universe” e “Being For The Benefit Of Mr. Kite” são um parque de diversões e sensações para quem quer se aprofundar no idioma. Fora do estúdio e do palco Lennon era uma figura absurdamente autêntica, irreverente, polêmica e controversa. Artistas costumavam só exteriorizar uma imagem fabricada para o mercado e a mídia, mas ele definitivamente mostrava também sua faceta caótica. Na adolescência explorei sua carreira solo com mais profundidade. A forma que ele expressava seus traumas e dores era tão genuína quanto seus surrealismos e alquimias poéticas dos anos sessenta. Como compositor o aponto como um dos melhores do seu século. Genialidade talvez seja a arte de conseguir oferecer algo muito além do que nos é transmitido. Nesse caso, mesmo sem conhecer muita teoria musical ou ser um literato, ele foi capaz de produzir verdadeiras obras primas.
Lá pelos vinte anos eu já tinha integrado três bandas e lançado álbuns com propostas musicais distintas, mas sempre existiu um quê deles na minha produção. Não se trata de réplica inconsciente ou plágio disfarçado. Creio que o artista atua como uma esponja que continuamente absorve estímulos e os ressignifica. Por isso a influência deles paira sobre a cultura pop até hoje e a MPB prova isso facilmente. Traduzir uma obra dessa magnitude é um desafio arriscado. Possibilita desaprovações já desde antes de conferir o que foi desenvolvido pelo atrevido da vez. É preciso conservar não só o lugar das rimas, a métrica do texto e a fluidez da melodia como também o espírito e a atmosfera da canção.
Ninguém melhor para exemplificar como dar alma a uma canção do que George Harrison. Mesmo dividindo os holofotes com dois dos maiores arquitetos da música moderna, suas canções alcançaram reconhecimento inquestionável e nos convidam a mergulhar em nós mesmos para obter preciosos conhecimentos cósmicos. As melodias e poesias possuem uma delicadeza raríssima. “All Things Must Pass” é meu álbum preferido das fases solo. “Something” é das melhores canções de amor do planeta (como Sinatra já dizia) e no momento que escrevo esse texto “Here Comes The Sun” é a faixa do grupo com mais execuções nas plataformas de streaming. Na fase adulta só integrei um tributo desse universo e foi uma banda para celebrar sua obra. Por uma das convergências do destino foi inclusive o Vinicius Sá o técnico de som de vários shows desse circuito. A essa altura eu já tinha oscilado de integrante favorito duas ou três vezes, mas a própria filosofia do George me levou a concluir que não havia sentido em eleger um deles. O segredo da vida e da música está na complementariedade dos elementos.
Acabarei falando mais dos que já partiram do que dos vivos, até porque eles ainda estão escrevendo sua história. O que dizer de Paul? Dono de imenso talento, ele é um inovador permanentemente curioso e cheio de sensibilidade. Poucos sabem, mas o Sir. já compôs de sinfonias clássicas até temas eletrônicos futuristas. Pérolas como “Yesterday”, “Hey Jude”, “Blackbird”, “Michelle” e “Eleanor Rigby” seriam icônicas mesmo se não tivessem as belas letras que McCartney escreveu. Para mim, o melhor melodista que caminha na terra. Por sua causa me tornei um multi-instrumentista e realizei projetos tocando todos os instrumentos, como em “Pão e Circo” (meu primeiro trabalho solo).
Ringo por sua vez é um grande artista que ainda é subestimado em alguns círculos de ignorância. Músico de privilegiada criatividade, conseguiu com maestria incorporar batidas e pioneirismos rítmicos nas canções dos outros três. A bateria é o coração de uma banda e nós temos sorte dele ter sido a pessoa certa no lugar certo. Seja em “Rain” (confessadamente sua música favorita do quarteto), “In My Life”, “Taxman”, “Strawberry Fields Forever”, “The End” etc... sem seus arranjos de bateria, a magia desmoronaria. Ele contribuiu pouco como compositor, mas nos filmes foi sempre um destaque. Cômico e caricato sem ser forçado ou apelativo. Entre os camaradas de banda demonstrou ser a personalidade mais conciliadora, sempre elogiado pelos demais. Único capaz da façanha de reunir num disco solo os três ex-parceiros (em diferentes faixas, é claro). O mais precioso ensinamento que tive com o Ringão foi o de não me levar tão a sério e nem me cobrar além da cota saudável para um preguiçoso declarado. Esse ano completou oitenta primaveras. É pra aplaudir de pé.
Amigos me perguntaram ao longo dos anos se eu tinha vontade de regravar canções deles. Sempre disse que não. Qual seria a motivação para entrar em estúdio e repetir o que já foi muito bem feito no passado? Agora ironicamente 50 anos após o fim do conjunto me vi subitamente fascinado pela ideia de versionar parte dessa obra e o resultado da experiência me deixou realizado e surpreso. Ao mostrar para os mais íntimos (principalmente os que ouviram a vida toda e não falam inglês), as reações foram impagáveis. Gratificante demais. É um prazer dividir tudo isso com o resto dos fãs deles que falam português e com os futuros ouvintes dessa obra mágica e mística que o tempo só fortalece. Paz, amor e boas vibrações para todos os que leem.
De Luca"